João D. Filipe, pintor www.filippe.com

 

Voz da Verdade, 27 Maio 2007

reportagem

A arte deve preocupar mais a IGREJA

 

 

É pintor de uma arte quase inédita em Portugal.

Tem uma particular predilecção pela Rússia e a arte

oriental. Aos 48 anos de idade, casado e com nove

filhos, João Filipe conta a sua experiência de cristão

e de pintor de ícones. As suas 450 obras

encontram-se espalhadas em colecções particulares,

igrejas e outros lugares públicos da Europa,

América do Sul e Estados Unidos.

 

Perto da Faculdade de Belas Artes, encontram-se diferentes ateliers expondo obras de arte de diferentes autores. Quadros de pinturas mais ou menos abstractas expressam as cores das ideias dos artistas. Os visitantes entram e saem das lojas apreciando as obras de arte expostas. Ao fundo da Rua Ivens, em Lisboa, encontra-se o atelier de um artista cuja técnica é pouco usada em Portugal. João Filipe é um dos poucos pintores portugueses que, desde há alguns anos, se tem aventurado no espírito da arte sacra, segundo os cânones antigos. As curtas e pacientes pinceladas que batem na madeira manifestam a tradição bizantina dos ícones antigos. As origens da tradição bizantina remontam aos primórdios do cristianismo e as suas técnicas chegaram intactas até aos nossos dias. As expressões gregas, romanas e também orientais dos primeiros séculos estão presentes na simbologia e na pintura dos quadros.

 

Uma história do oriente

Na adolescência, João Filipe pensou em seguir as Belas Artes. Pintou ideias e ideias. A arte esteve sempre nas suas veias. O gosto pela arte aprendeu-o na família, oriunda da Sertã, perto de Castelo Branco. Alguns parentes próximos estavam ligados, de forma particular, ao artesanato e aos trabalhos manuais. O sonho de ser pintor desvaneceu-se no final da adolescência, quando surge o 25 de Abril. Os tempos eram de “um turbilhão enorme” para a arte e João Filipe compreendeu que havia “baixa total das galerias e da arte”. A história, o direito e a filosofia estavam, então, entre as suas matérias de preferência. Já casado, decide tirar o curso de direito, mas para sustentar a família vê-se obrigado a empregar-se como conferente marítimo no porto de Lisboa. A vida estava divida entre os estudos, o trabalho e a família. Era preciso pagar os livros, as contas do dia-a-dia e a própria casa. Mas o gosto pela arte bizantina encontra-se também muito ligado à sua história pessoal. Desde pequeno que se lembra de rezar em casa pela conversão da Rússia. No cumprimento dos pedidos da mensagem de Fátima, a família rezava todos os dias por esse país distante da Europa oriental. Depois da queda do muro de Berlim, em 1989, casado e no último ano de Direito, João Filipe vê então a oportunidade de se lançar em missão, com o objectivo de espalhar a Evangelização. Deixa tudo e aventura-se, com a sua família. Pensavam que a Rússia seria o seu país de missão, mas o avião segue exactamente no sentido oposto: Estados Unidos da América.

Enviados pelas Comunidade s Neo-Catecumenais, seguem para Newark, onde existe uma grande comunidade de portugueses, mas mais uma vez vêem as suas vidas ligadas ao oriente. Trabalham agora numa paróquia lituana. Ligado a Portugal pela língua e à antiga Rússia pelo trabalho, o pintor dá, aí, largas à sua imaginação. Trabalhou nas obras, com martelos pneumáticos, mas a sua estrutura física não lhe permitia continuar esse trabalho, por isso dá continuidade ao seu projecto como pintor. Hoje, perto de duas dezenas de paróquias e igrejas católicas e ortodoxas acolhem alguns dos seus ícones.

 

 

Um homem, um artista, um cristão

A vida de João Filipe está dividida entre a pintura e a família constituída por nove filhos. A filha mais velha está hoje com 23 anos de idade, mas o Simão tem apenas nove meses de idade. Confessa que os filhos são na sua vida um dom e, apesar dos trabalhos que provocam, lembra que é por eles que, todos os dias, se senta diante das madeiras para fazer obras de Deus. O despojamento que o levou a deixar a vida fácil de Portugal e a optar pela missão há quase vinte anos atrás é o mesmo despojamento com que vive hoje a sua entrega cristã. Fascina-o a vida dos grandes santos, “como são Francisco de Assis ou os missionários que depois dos descobrimentos encetaram uma viagem sem regresso”. A experiência cristã que arriscou fazer ao partir para a missão deu-lhe a certeza de que “Jesus nunca nos defrauda, apesar de todos os sofrimentos, de toda a miséria e pobreza”: “é por isso, também, que eu sou pintor”. A sua confiança leva-o a não ter medo de ter filhos e sente que a própria sociedade penaliza muitíssimo as pessoas que optam por ter os filhos: “ainda não foram despenalizadas as mães que optam por ter filhos”.

 

 

Pintar o invisível

O fascínio pela Rússia e a eleição de João Paulo II, da Polónia, conduziram-no a uma primeira experiência: pintar a Virgem de Chestokova. A aprendizagem foi feita “segundo a técnica mais antiga da pintura, ou seja, com os outros pintores”. O cónego João Marcos e com vários pintores de Espanha e Veneza, que têm explorado a técnica do ícone, levaram-no a fazer uma primeira experiência. João Filipe ainda se lembra do primeiro ícone que já não existe. Com uma certa ingenuidade lançara-se para “um dos ícones mais difíceis de reproduzir” e a obra ficou à vista: “ficou tão mal que já nem existe”.

O que mais o fascina nos ícones é capacidade de surpreender, porque “não mostram logo tudo”. O simbolismo que cada imagem encerra transmite uma certa penumbra de mistério, capaz de deslumbrar quem a observa. Por isso, pintar o mistério onde se apreende o invisível não é coisa fácil: “os ícones recordam-nos – e é essa a sua função – a realidade que nos apresentam que é Jesus, nossa Senhora, os Santos”. Quando se olha para o ícone, não se olha para “uma fotografia pintada”. Obedecem às mesmas regras de pintura, com uma simbologia própria, com cores quase fixas. Por isso, pode parecer que todos os ícones são iguais, mas, de facto, não o são. Ao pintor fascina-lhe o facto de “ser uma arte muito simbólica, que não se apreende imediatamente, que nos acompanha durante toda a vida”. A contemplação de um mistério da fé cristã tem levado muitos artistas a retratar uma realidade difícil de exprimir. João Filipe revela que esta “é uma arte mais bruta, mais genuinamente cristã que brotou das catacumbas e que aponta para Jesus”. Apesar obedecer aos cânones clássicos, não se sente prisioneiro das regras, porque, “tal como a música, há diferentes interpretações da mesma pauta – o mesmo cânone”: “há, por isso, um certo respeito de determinados cânones e depois cada artista interpreta da sua forma”.

 

O outro lado da iconografia

A humildade com que fala das suas obras é visível no rosto. Não fala das suas obras, mas apaixona-o a ideia de poder transmitir o que vive. Quando questionado sobre a sua actividade espiritual, o artista não hesita em dizer que não faz mais do que qualquer outro cristão. Apesar da arte solitária, que exige muita concentração, não se considera um cristão extraordinário: “rezo como os outros rezam nos seus trabalhos”. Acresce-lhe apenas o facto de poder contactar todos os dias com a solidão do seu próprio atelier de pintura. Às vezes chega mesmo a levar um dos seus nove filhos para estarem com ele, mas refere que não pode trazer mais do que um, senão é o caos completo.

O processo de organização de cada quadro é muito simples. Fazer um desenho à parte, em papel, é logo a primeira coisa que deve fazer. Só depois passa para a madeira com gesso o desenho daquilo que virá a ser um ícone. Constrói, então, a tempera que irá dar cor às imagens e aos símbolos retratados na madeira. A técnica “aproxima-se muito do desenho a lápis, porque é uma pintura que não cobre imediatamente: são necessárias centenas, milhares de pinceladas para construir a imagem”. É preciso ter muita paciência, uma vez que iniciada a obra, pincelada após pincelada, tem de haver um tempo de espera: “tem de se pintar um dia, depois deixar secar e passados dois dias – quando já está seco – voltar a pegar na obra para poder dar continuidade”.

 

Igreja é percursora da arte

Ao longo dos séculos a Igreja tem sido percursora na forma como tem tratado os artistas e arte. João Filipe é crítico das obras que muitos chamam arte sacra construídas por artistas ateus. Recorda, no entanto, com felicidade o encontro organizado pelo Departamento da Comunicação e da Cultura dirigido aos artistas e refere que “a Igreja deveria incentivar mais os artistas e de forma particular a arte cristã feita por cristãos”. Na sua opinião na organização da pastoral, a Igreja deveria, tal como faz com a pastoral dos jovens e da juventude, pensar numa pastoral dos artistas: “a arte faz parte da Igreja e, mesmo em Portugal, é responsável por boa parte das obras, quer de pintura e escultura mas também de música”. No seu contacto com diferentes culturas lembra a experiência da América onde não se encontram obras de arte com referências cristãs: “para o fazer, precisam de se meter dentro de um avião para visitar a Europa, ou então visitam os museus”.

 

Pe. Edgar Correia Clara

27 Maio de 2007

João D. Filipe, pintor

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