Algumas representações situam-se no plano da imanência e do quotidiano da vida humana, quando evocam o nascimento de uma criança, igual a todas as outras, em contextos sem sinais de transcendência. É o caso das pinturas de Paula Rego na antiga capela do Palácio das Necessidades.
No pólo oposto, encontram-se as representações que integram referências ao mistério e à transcendência, que reinterpretam modelos iconográficos estabelecidos e contêm sentido religioso. Situando-se no plano do sagrado, destinam-se ao culto. É o caso dos ícones de João Filipe e das pinturas de João Marcos.

Entre os extremos das interpretações imanentistas e transcendentalistas do Presépio existe uma infinidade de nuances e de propostas, que glosam ou transfiguram, poeticamente, as simbologias do religioso e do sagrado, segundo as sensibilidades e as linguagens de cada artista.
No contexto das temáticas cristãs, a Natividade e o Presépio são as que oferecem aos artistas mais pistas inspiradoras no que respeita às simbólicas e aos imaginários, sendo, também, as que têm maior procura por parte de coleccionadores e de Instituições. As edições de medalhas e de cartões de Boas Festas foram oportunidades para uma livre intervenção de arquitectos, pintores, escultores e designers, como Graça Costa Cabral, Ilda David’, João Marcos, José António Flores, José Rodrigues, Luiz Cunha, Maria Gabriel e Rui Paiva.
Entre as esculturas de pequenas dimensões sobre o tema do Natal, encontram-se um Presépio de Maria Irene Vilar e uma Natividade de Clara Menéres, múltiplos editados pela IN/CM, e um Presépio em prata, de Graça Costa Cabral.
Entre as obras monumentais encomendadas para locais públicos, destacaram-se o Presépio de Clara Menéres construído no topo da Alameda D. Afonso Henriques, no Natal do ano 2000, e o Presépio desmontável de José Aurélio, instalado em permanência no Santuário de Fátima.
VISÕES DIFERENTES DE UM ÚNICO NATAL
Há mais de oito séculos que o Natal se celebra na poesia portuguesa. As belíssimas composições de Afonso X, do Mestre André Dias e do maior teólogo da nossa literatura que é Gil Vicente representam uma espécie de pórtico para uma viagem que, em cada época, encontrou os seus cantores. No século XVI, há sonetos de Camões; no século XVII, os vilancicos de Sóror Violante do Céu. No século XVIII, encontramos o Abade de Jazente, Correia Garção e muitos outros. O século XIX é de Garrett, com um poema delirante e “incorrecto”, onde faz valer o Natal folgado e guloso da sua “católica Lisboa” sobre o “Natal sem graça” dos protestantes londrinos. No século XX há o Natal devoto de Gomes Leal; o Natal distanciado de Pessoa; o evangélico Natal de Sophia e de Nemésio; o Natal de David Mourão-Ferreira. Declinações diferentes de um único Natal.
|