Igreja de Cristo Rei, Algés-Miraflores

RETÁBULO DE CRISTO EM MAGESTADE

pintado por João D. Filipe

www.filippe.com

 

INAUGURAÇÃO DO RETÁBULO CRISTO EM MAGESTADE

Domingo, 26 de Novembro de 2000

 

Pintura de João D. Filipe em tempera e folha de ouro sobre madeira com as dimensões de 140x200cm.

 

Igreja de Cristo Rei

Rua João Chagas, 4-A

1495 ALGÉS

telef. 21 4116767/8

 

BENÇÃO DO QUADRO : missa das 11:00 na igreja

APRESENTAÇÃO DO QUADRO PELO PINTOR: 21:30 na igreja

 

 

 

 

VIDI DOMINUM sedentem

super solium excelsum et elevatum,

et plena erat

omnis terra maiestate eius;

et ea quae sub ipso erant

replebant templum.

Seraphim stabant super illud

et clamabant alter ad alterum

et dicebant:

sanctus Dominus exercituum,

plena est omnis terra gloria Eius.

( Estêvão de Brito c1575-1641)

 

 

 

Durante as cento e cinquenta horas que levei a terminar este quadro pensei demoradamente o que é que eu pintor poderia escrever de novo sobre a figura de Cristo, ciência tão elevada e antiga que eu não entendo, pertença de teólogos, doutores, santos. Assim, incapaz de entrar no domínio dos especialistas, decidi apenas deixar aqui algumas notas do que a um pintor foi ocorrendo nos três meses da pintura e do que me diz a figura de Cristo a mim, homem comum, vivendo no mundo como qualquer outro, paroquiano. O resto, arte e teologia, pode ser encontrado nos livros.

Em frente a uma tábua vazia com dois metros de altura, desconhecendo se alguma vez terminaria, ainda menos sem saber por onde iniciar, comecei por encher o silêncio ouvindo um cântico da renascença portuguesa tardia. São os versos apocalípticos, em latim, que abrem esta folha e que traduzo como se segue:

 

 

VI O SENHOR sentado

no seu trono excelso e altíssimo

e toda a terra

estava cheia da sua magestade;

e aqueles que estavam por baixo d'Ele

enchiam o templo.

Sobre Ele estavam Serafins,

gritavam uns aos outros

e diziam:

Santo é o Deus dos exércitos celestes

a terra inteira está cheia da sua glória.

 

Um cântico apropriado ao Cristo Pantocrator, o Senhor do universo, Dono da história,de nós e de tudo, que reina sobre toda a terra. Como proclamam os salmos:

 

O Senhor é Rei, revestiu-se e cingiu-se de magestade,

revestiu-se e cingiu-se de poder. (Sl. 92)

Senhor, Nosso Deus,

como é admirável o Vosso nome em toda a terra!

a Vossa magestade está acima dos céus. (Sl. 8)

 

Assim comecei. Primeiro pinceladas de gesso branco, durante alguns dias, a seguir o desenho d'Aquele que está sentado no trono. Demos glória ao seu nome. Os símbolos dos evangelistas depois e os fundos de tinta. Ao Cordeiro, o louvor, a honra, a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Um tão grande Senhor e a minha obra, uma imagem de Cristo, um cadeiral, uma oval, quatro pontas salientes com um anjo e animais, uns desenhos e fundos tão toscos. Fechei as portas do atelier pois neste estádio da pintura ninguém acreditaria que alguma coisa, algum dia, apareceria.

 

Inseridas nos quatro triangulos encontramos os atributos dos quatro evangelistas, Mateus, Marcos, Lucas e João, cuja fonte é uma passagem do profeta Ezequiel, capítulo I, versículos 1 a 5. No Apocalipse, capítulo 3, acham-se também figuras semelhantes rodeando o trono de Deus, as «bestas do Apocalipse».

Deste modo, na ponta superior esquerda encontramos um homem com asas que representa São Mateus porque é o seu evangelho que começa com uma árvore geneológica de Jesus e traz-nos um relato pormenorizado da incarnação de Cristo.

Em baixo, São Marcos, que abre o seu livro com uma voz que grita no deserto, do percursor do Messias, o Baptista, o homem cheio de bravura que nunca ocultou a verdade (e por isso foi decapitado). Daí o leão com asas símbolo deste evangelho que também enfatiza a dignidade real de Cristo, o Leão de Judá.

À direita em baixo o boi, o animal sacrificial, alusivo a São Lucas que inicia o seu escrito com o sacerdócio de Zacarias e sugerindo também o sacerdócio de Cristo.

Em cima a àguia, o pássaro que voa mais elevado nos céus, referencia a São João, evangelista cuja visão de Deus foi a mais próxima e distinta de todos, com a sublime contemplação da natureza divina do Salvador.

 

Finalmente as quatro pontas representam os quatro pontos cardeais, as quatro direcções e cantos do mundo para onde se dirige a obra da evangelização, ontem, hoje e sempre.

Estas quatro pontas irrompem e recebem a sua força de uma espécie de oval em forma de amêndoa, chamada a mandorla, figura que na representação da arte significa a glória ou luz que envolve um pessoa divina, mais frequentemente Cristo, mas também por vezes, Maria.

 

A imagem de Cristo encontra-se ao centro sobre um trono do qual que vêem apenas umas linhas simplificadas e um escabelo a seus pés sinal do domínio sobre os inimigos. Notam-se alguns pormenores da chamada perspectiva inversa frequente no estilo da arte bizantina. Os objectos físicos, ao invés de diminuirem à nossa vista à medida que se afastam para o horizonte, antes aumentam de tamanho querendo dizer com isto que nós somos o centro espiritual da perspectiva e a imagem, neste caso Jesus, que contemplamos, vem ao nosso encontro.

 

Também as cores têm alguns significados que aqui se resumem: o azul intenso, a cor do firmamento límpido, depois da tormenta, que sugere a claridade e a revelação da verdade e é também a cor do Céu e do amor divino. O vermelho, a cor clássica do poder soberano dos romanos, que hoje se perpectua no múnus cardinalício, tem neste caso o símbolo do sacrifício e omnipotencia de Cristo Rei, do seu amor sem fim por nós. Igualmente o ouro, abundante, reflexo da glória de Deus, transporta-nos para a Magestade imensa de tão altíssimo Rei e para a incorruptibilidade resplandecente do Ressuscitado.

 

Um pouco temeroso com toda esta elevação fui trabalhando nos esboços e na pintura e foram aparecendo, dia após dia, linhas mais claras, cores mais definidas com os seus diferentes tons de luz e sombras e volumes na imagem de Cristo. Em cima escrevi «IX XC», acrónimo grego que significa Jesus Cristo. De pé num banco fui contemplando o resplandecer do rosto de Jesus surgindo à medida que o pincel o destapava. Revestido de uma auréola onde está inscrito numa cruz, em grego «ho ôn» aquele que é, o nome de Yahweh, revelado a Moisés. Com uma lupa criei dois olhos claros para que se pudessem ver bem ao longe. A partir dum certo momento esses olhos passaram a olhar-me, e não mais pararam de me vigiar quer me escontrasse em frente, à esquerda ou à direita do quadro.

 

Assim permanentemente observado pela pintura criada pelas minhas mãos de pecador, e pelo Jesus verdadeiro e ressuscitado, real, presente no céu e na terra e em toda a parte, veio-me à mente a magestade de Cristo e a Sua justiça . Justiça presente no juizo final onde não poderemos escapar e onde serão separadas umas ovelhas para a direita outras para a esquerda.

Para a direita aqueles de nós que neste mundo viveram a misericórdia, a piedade, partilhando a sua boa comida e a bebida, vestindo bem os que precisam de roupa, cuidando dos enfermos, dando hospitalidade e aconchego aos peregrinos, visitando os presos, tudo do bom, saido do nosso bolso, como se fosse ao próprio Cristo. A estes o Justo Juiz têm reservado uma mansão, um extasiamento pela beleza, uma surpresa e deslumbramento eterno do qual não se tem vontade de desviar o olhar, a visão de Deus, o Céu.

Depois para os outros, apegados à sua vida pequenina, à sua avareza mesquinha e aos intermináveis ódios e pecados que seria fastidioso enumerar, o seu destino é o outro lado. A continuação duma vida tormentosa e inquieta, num sítio esteticamente feio, de que hoje há vergonha em falar, um susto sem fim, o fogo do inferno.

 

Então desci do banco e dirigi-me à mão direita do meu Cristo pintado que vemos num gesto de benção ao mesmo tempo que me ressoavam estas palavras tão caras:

 

Levanto os olhos para Vós,

para Vós que habitais no céu.

 

Como os olhos do servo se fixam nas mãos do seu senhor,

e os da serva nas mãos da sua senhora,

assim os nossos olhos se voltam para o Senhor nosso Deus,

até que tenha piedade de nós.

Como não tenho cavalete no estúdio para quadro tão grande, tão pesado, tive eu que descer mais, literalmente de joelhos, quase colado ao chão para pintar os pés de Jesus e as suas chagas, marcas da Sua crucifixão. Continuando o salmo 122 :

 

Piedade, Senhor, tende piedade de nós,

porque estamos saturados de desprezo.

A nossa alma está saturada do sarcasmo dos arrogantes

e do desprezo dos soberbos.

 

 

Pelo caminho ficou por pintar o livro referido na revelação de S. João: « Tu és digno de receber o livro e de lhe abrir os selos, porque foste imolado …» O meu livro ficou aberto durante semanas à espera da continuação da profecia «… e resgataste para Deus, com o teu sangue, homens de toda a tribo, língua, povo e nação, e fizeste para o nosso Deus, um reino de sacerdotes que reinarão sobre a terra». Que inspirada frase e que sublimidade de teologia poderia congregar os homens do mundo inteiro tão diferentes e avessos uns outros e torná-los felizes? E também o que é que poderia ajudar aqueles que vão olhar para este quadro a recordarem-se do Filho de Deus? E mesmo o que me poderia ajudar a mim? Muitas frases certamente. Mas como de facto não encontrei a sentença desejada decidi ir directamente ao ponto. Escrevi no livro: CARITAS. Caritas Cristi, o amor de Cristo.

 

Coisa tão séria e necessária, beleza de Cristo tão profunda. Diz-nos São Paulo que se pudesse falar todas as línguas humanas que se vêm e as do céu que não se vêm, se não tivesse a Caridade de Cristo seria como um daqueles sinos portentosos de cinco toneladas mas que se encontram rachados. Um monstro inútil. Ainda que fosse um profeta, tivesse toda a ciência e mesmo a plenitude da fé, a ponto de fazer prodigios como deslocar montanhas, sem a Caridade de Cristo, tudo isso teria o valor da erva seca que é queimada e de que nada se sabe. E mesmo que passasse das palavras aos actos e distribuisse o seu dinheiro e as suas riquezas estimadas aos pobres, ao ponto de chegar ao martírio, sem a Caridade de Cristo seria como o vento que desaparece e não deixa rasto.

 

Pois a Caridade de Cristo é paciente para com os outros, é prestável, não é invejosa, não se ostenta, não se incha de orgulho, não faz nada de inconveniente, não é ávida do interesse próprio, não se irrita, não é rancorosa. Não se alegra com a injustiça, ama a verdade. Tudo desculpa, crê nas boas intenções dos outros, espera deles sempre o bem, tudo suporta. Com a Caridade de Cristo entende-se tudo, sem a Caridade de Cristo não se entende nada. ( Cfr. 1 Cor. 13, Sl. 1 )

 

Tudo desaparecerá um dia. Mesmo a Fé porque veremos Deus face a face, mesmo a Esperança porque já estaremos na Sua presença. porém nunca desaparecerá a virtude da Caridade de Cristo.

 

Creio firmemente que Cristo veio a esta terra nascer no epicentro de ontem e hoje, mais conflituoso do mundo. Para resolver um dos maiores problemas permanentes dos homens, discórdias e azedumes. Basta existirem dois homens para haver dois inimigos. Dois filhos, dois professores, dois funcionários, dois doutores, dois cientistas, dois artistas, dois padres…

Com a Caridade que vem de Cristo esses dois inimigos já não são inimigos, tornam-se irmãos.

 

*****

 

Este quadro é a minha pintura número 227 e foi pintado em tempera sendo os fundos pintados a óleos solúveis em água. Nele foram colocadas, incluindo a moldura, trezentas folhas de ouro importado da Alemanha, de 23 quilates.

Agradeço ao sr. Francisco Maria António a oferta do painel e ao Luís Fernandes os diversos transportes do mesmo. Ao sr. Cónego Armando Duarte, com enorme gratidão, o encargo da pintura deste retábulo

Dedico este Cristo em Magestade aos paroquianos de Álges-Miraflores, sobretudo aos que neste momento se encontram mais afastados do seu Pastor. Peço uma oração.

 

João D. Filipe

26/11/2000

 

 

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